8.10.17

O horizonte



O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — e o céu caindo mais adiante, bem mais à frente, já na avenida Constantino Neri — em um silêncio constante talvez interrompido em um dia onde não haverá mais gente — pontuado por luzes de torres desconhecidas e prédios de apartamentos cheio de gente dormindo – muda de cor.

Penso na inclinação da Terra. Estamos ou não de cabeça para baixo? E, se estamos, qual diferença faz para toda a ordem das coisas? Ao nosso redor — fora da Terra — tudo é absurdamente silencioso. O silêncio do universo, mesmo com tantos planetas girando furiosamente, tanta grandeza — e gás — é inexplicável como todo o resto.

Girando o ponto de vista. Indo muito, mas muito longe, em uma distância impossível de imaginar para olhos humanos, há um homem bastante semelhante a mim com um livro sobre o colo. A existência deste homem é tecnicamente possível. O universo é largo o bastante para haverem muitas Terras iguais a nossa e gente semelhante a nós. Esse homem semelhante a mim é mais magro — diferente do outro outrora semelhante a mim — em um lugar ainda mais distante — envelhecido de forma gorda torta e incorreta. E a magreza e ou a gordura são totalmente irrelevantes: o homem é o mesmo. Eu neste universo ainda resisto ao envelhecimento óbvio. Descubro e confirmo através dos olhos de outrem o fato de tanto eu quanto a minha mulher aparentarmos ter menos idade. Não tenho trinta e sete anos.


Alguém viu este horizonte antes de mim, neste lugar exato? Não, nunca. Ninguém nunca esteve suspenso neste apartamento. Piso muitos metros acima, imitando o chão. Piso, muitos metros acima, imitando o chão. Piso muitos metros, acima, imitando o chão. Piso muitos metros acima. Imitando, o chão.  

6.9.17

Um trekker em formação



Assistir Star Trek faz você se tornar uma pessoa melhor. Primeiro porque se você decidir assistir a todas as séries: The Original Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise e mais a Discovery (prestes a estrear) não sobra muito tempo para odiar ou fazer muitas coisas erradas. 

Segundo, porque os valores mostrados nas séries fazem ter esperança na humanidade, vislumbrar um futuro onde nem países existem mais e a ética humanista, não religiosa, guia as decisões (quase) sempre sábias dos comandantes. O coletivo antes do individual. A amizade antes da missão.

Cada um dos comandantes ensina algo ímpar. Kirk a ser passional, mas sempre guiado pela razão. Além de sempre beijar a garota quando possível, não importando de qual planeta ela seja ou mesmo sendo uma andróide. Piccard a ser firme e sempre optar pelo discurso antes de usar a força. Janeway a ter muita paciência, mesmo que a sua missão leve literalmente uma vida inteira. Sisko a aceitar entreveros mas sem se resignar com isso, e Archer a ter coragem, não ter medo do que acontecerá, mesmo sem muitas vezes ter a menor idéia do que virá pela frente.

E há os volcanos. Spock, principalmente. Todo fã de Star Trek (eu pelo menos) tenta ser como ele em vários momentos onde tentamos agir e resolver coisas logicamente. E falhamos. Na verdade não conseguimos ser tão bons como nenhum integrante principal da série nem em suas virtudes e nem em seus defeitos. Não consigo beber tanto quanto Mr. Scott e ainda ser apto a consertar um mecanismo movido a antimatéria, ou segurar a onda como Mr. Tucker ao esfregar gel antiséptico e ser esfregado pela T´Pol. Mesmo assim continuo tentando. 

Inconscientemente sempre fui fã da saga. Quando criança tenho a memória do VHS de Star Trek II, À Procura de Spock, e lembro do quanto fiquei impressionado ao vê-lo indo de uma criança a um adulto em poucos dias. Nos anos que se seguiram, vi alguns filmes sem seguir a sequência, sempre gostando, mas sem assistir os episódios organizadamente pelo fato de então ser bastante difícil (e caro) encontrar e encomendar séries, muito menos abrir um serviço de streaming e ter todos os episódios organizados, prontos para serem assistidos.


Ao lembrar da maravilha tecnológica que era o video-cassete e compará-lo com o computador à minha frente percebo o quanto o tempo passou rápido. Mesmo não estando no planeta Gênesis, me sinto um pouco como o Spock. Um dia criança, outro adolescente e agora adulto indo para os quarenta. Por enquanto a lembrança, distorcida, mas lembrança, é o único time warp possível.   

Ainda sobre a questão do tempo, se você decidir não assistir mais nada além de Star Trek, levaria pelo menos um ano até você conseguir assistir a todos os filmes e episódios já produzidos. Sem contar os livros e os jogos. É preciso muita gostar muito. E não é difícil gostar muito das séries, mesmo se você incompreensivelmente não é fã de ficção científica.

Assim, para você dizer a alguém que é um trekker e se garantir, leva tempo. Eu decidi começar a minha graduação, digamos assim, após o reboot da franquia. Comprei a caixa com todos os episódios da série original (a qual teve apenas três temporadas, sendo que a terceira é considerada bem ruim) e todos os longa-metragens da série original e os da Nova Geração. Agora estou terminando os episódios da série clássica e assistindo as primeiras temporadas das outras séries pela Netflix. E aguardando a Discovery ansiosamente. 

A cada episódio - onde normalmente os problemas mais catrastóficos se resolvem nos últimos cinco minutos - vou aprendendo mais um pouco do que não considero uma cultura inútil; e sim algo possível de existir um dia. Vislumbrar coisas que, se acontecerem, acontecerão muito depois de eu não mais existir. Além de os personagens serem muito bem criados e desenvolvidos com uma impressionante dedicação do elenco: em momento algum você pensa que William Shatner não está realmente vendo uma nave se aproximar pelo monitor, ou que qualquer figurante não está realmente circulando pelos corredores de uma das naves ou em uma estação espacial no fim do universo.

Não sei quando termino de assistir a todas as séries Star Trek, mas um dia chegarei lá. Verei os créditos subirem e, ao me olhar no reflexo da televisão, não sei ao certo qual aparência terei, mas espero estar aqui. Antes disso, porém, espero que o mundo real não acabe antes; e que um dia cheguemos a pelo menos um vislumbre do que é mostrado em Star Trek. 

26.8.17

Trânsitos



A percepção de estar em um lugar fazendo algo e, ato contínuo, estar presente em outro fazendo algo completamente diferente, usando as mesmas roupas e com a mesma umidade sobre a pele do banho que tomara minutos antes e muitas vezes a mesma música, mas ambientada em outro lugar, me mostra um conjunto de cenas banais, porém bem urdidas, e faz com que me sinta personagem de algo não controlado por mim mesmo. Eu vou te contar sobre meu dia de hoje.

A visão e as interações curtas que tenho com a minha mulher enquanto eu tento acordar e ela está pronta para o trabalho estão mais no campo onírico do que no da realidade. Às vezes ela está bem-humorada e às vezes não (isso é uma descrição tacanhamente limitada e óbvia do ser humano: todos, sem exceção, estão ou bem-humorados ou não) mas de qualquer forma nos comunicamos. Hoje foi assim. Um beijo mais longo que o normal para antes das sete e a porta se fechando em um silêncio breve; como se minha mulher tivesse esquecido de trancar a porta, mas não: a tranca corre uma, duas vezes, e ela fecha a mim e a nossa gata em segurança.

Eu tomo café da máquina nova e que delícia é o café. Provar um café bom ou provar qualquer outra bebida razoavelmente boa cria uma frustração constante com o que não é tão bom quanto. Ainda essa semana comprei pó Santa Clara para coar o café que levo para a autoescola. Levei por dois dias, terça e quarta, mas não levei nos dois últimos porque não ia voltar para casa depois e antes do trabalho. Uma garrafa térmica é algo frágil; independentemente de ser uma Zojirushi ou uma comprada com bônus Bemol. Estava acostumado com o café en passant, aquele que você bebe enquanto vê televisão ou calça os sapatos. O café cuja função é acordar e não fazer com que você e o aprecie – café – em seu gosto e importância. 

Pouco tempo depois estou dentro de um ônibus. Uma espécie de purgatório ambulante. Várias pessoas se aglomeram antes da roleta. Uma senhora negra e magra recende a álcool. A cobradora recusa a minha cédula – diz não ter troco. Uma senhora bate no meu ombro, diz que quer passar. Eu a encaro e digo que eu irei afastar e ela irá passar. Os presos antes da roleta percebem o meu tom de voz e me encaram brevemente com leve estranheza. A senhora que morrerá sem ter bons modos fica em silêncio e segue em frente. Empurra a roleta que lhe dará acesso a um dia totalmente esquecível. Tento não ser preconceituoso, mas é difícil não me ater ao fato de que a existência da maioria daquelas pessoas deu errado. Começou errada e continuará pontuada por um sofrimento que terá um fim incerto. 

Eu abandono o ônibus um ponto depois do qual entrara. É um veículo expresso, circula pela faixa azul. Enquanto os carros particulares se espremem no engarrafamento, o ônibus articulado segue com os seus passageiros irritados, entorpecidos, dentro, como uma massa, golfada ponto após ponto. O segundo ônibus passa logo. Este mais vazio e civilizado. Em pouco mais de cinco minutos estou a caminho da sala de aula. Desta vez não como professor, mas como aluno de legislação de trânsito.

Esperava o resultado de um teste previsto para o fim da tarde. Eu sabia que passaria, mas o teste é um teste por si só e só se encerra quando se sabe o resultado e você começa a pensar ‘e senão passei? Que vexame! Não basta estar em uma autoescola aos trinta e sete anos de vida?  Resolvi abrir o link e lá estava: aprovado. Alguém feliz no meio de uma aula de legislação de trânsito! Passei pelo teste silencioso. A instrutora de legislação de trânsito é uma mulher fincada na meia-idade, presa em um loop de chatice e constante. Tudo o que eu aprendi em relação a ser um professor é o que ela nunca aprendeu. Do arranjo das carteiras a coisas básicas como saber o nome das pessoas que por três horas estarão ouvindo as suas digressões de três frases sobre o trânsito e a existência.

Nesse ínterim terminei de ler O Teatro de Sabbath, de Philip Roth. O qual, realmente, não sei porque se tornou um escritor digno de vendas e de cânone. Tudo em Roth é ok. Só me dá a estranha impressão que a sexualidade exacerbada de seus personagens foi feita para vender livros. Não há significado. A leitura do livro me deu a clara impressão de estar lendo algo que não foi editado. Algo sem substância. Jonathan Franzen é melhor que Philip Roth. E o primeiro não precisou escrever uma dúzia de romances com um protagonista judeu e vender livros por sua obscenidade que nem obscena é direito. Romance tem que ter unidade. Causar um frio e um assombro quando do seu fim. Ou um anticlímax que te acompanhará por semanas. Romances de Jorge Amado me causaram isso mais de uma vez. Graciliano. Ou Como Era Verde o Meu Vale, de Richard Llewellyn, que me levou às lágrimas com tanta singeleza e força narrativa. O romance finalmente chega ao fim. Em sua cena final Sabbath se cobre com a bandeira americana e mija sobre o túmulo de sua amante. O fim dos livros digitais é abrupto ou inesperado – quando as várias páginas seguintes são na verdade apêndices ou informações extra sobre o autor e sua obra. 

Ainda tenho metade de Os Detetives Selvagens para ler e, não sei, por várias vezes penso que Bolaño pecou pelo excesso de genialidade; algo semelhante a David Foster Wallace em Graça Infinita: a demonstração implacável de quão culto e o quanto se domina o idioma e a técnica da escrita e isso tirar o lugar da história e até mesmo a força dos personagens. Você lê mais pensando o quanto o escritor é bom do que o quanto a história é boa. Independentemente de ser um clássico ou um livro da série Star Wars, a história é o mais importante.

Caminho bastante após a aula. Além de ir em direção ao apartamento da minha sogra, também tenho por motivo encontrar um adaptador para tomada. Passo por três lojas e não encontro em nenhuma. Para não perder a viagem compro uma saboneteira. Há poucas horas estava tomando um café delicioso e a minha casa ainda guardava a penumbra e um resto do ar condicionado da noite recém-desfeita – agora estou sob o sol me fazendo e refazendo entre luz e sombra. A estrela flamejante sobre a cabeça. Um negócio que rompe o vácuo. Uma estrela girando e explodindo furiosamente no centro de algo. Os homens buzinam dentro dos carros.

Almoço. Leciono até as quatro e meia. Preciso correr após o fim da minha aula - agora como professor e não aluno entediado - para conseguir furar as paredes antes das cinco e parafusar as saboneteiras novas. Termino de furá-las às quatro e cinquenta e nove. Torço parafusos. Limpo o chão do boxe com os pés. A água corre alheia. Reativo a barra do Windows após assistir a um tutorial feito por um rapaz simples do interior paulista. Só termino este texto vinte e quatro horas depois.



5.8.17

Ódio Social


Você pensa no life spam. Em todas as coisas legais e todas as merdas que fez e que mesmo assim ainda te deixam vivo e cheio de memórias. As coisas legais acontecem em uma frequência muito maior do que as merdas, mas estas últimas sempre são mais marcantes. Ou ambas se misturam e as coisas ficam ainda mais complicadas de serem esquecidas. Exemplo: Tudo era tão legal e prazeroso, até ficar uma merda (ou mesmo) quase acabar com a minha vida. Li recentemente vários posts sobre um tal aplicativo que permite a alguém mandar mensagens anônimas a outrem. A premissa cínica era a de que, dessa forma, anônimos se encorajariam, dariam “uma força” uns aos outros – como se o aplicativo fosse ser utilizado por pessoas de um outro planeta, e não humanos. Humanos adoram guardar rancores, odiar, ou foder uns aos outros, muitas vezes com tudo ao mesmo tempo. Não criei e jamais criarei uma conta nessa coisa. Várias pessoas já disseram que me odeiam sem precisar utilizar aplicativo e algumas outras me odeiam sem nem ao menos precisarem falar isso. Outras me amaram, fodemos e depois nos odiamos, mesmo continuando nos fodendo e nos desprezamos ou odiamos por termos que continuar fodendo pela falta de amor de outrem e no final das contas fui odiado por ter deixado ou ter continuado como alguém que não espera nada porque não há nada além do life spam. 

Mas digresso. 

E continuarei em minha digressão. Realmente não sei o que faz alguém odiar outrem gratuitamente. Sem ter tido um familiar morto por esta pessoa ou ter perdido um membro do corpo ou tudo o que possuíra: casa, carro; o que a maioria das pessoas consegue possuir e que, no balanço universal, não vale absolutamente nada. A amizade vale, até um dos amigos morrer e lá estou eu digressando novamente. Digo odiar por odiar. Ter o seu pensamento direcionado a alguém constantemente e desejar algo de mau ou simplesmente ter raiva dessa pessoa. Isso vale um estudo. Um estudo que não mudará nada como todo estudo, mas que mesmo assim será um estudo. Eu não odeio ninguém. Fato. Isso não me faz melhor ou pior, mas me desocupa muito, mas muito tempo. Escrever isto, claro, já é uma perda de tempo, mas como não possuo interlocutor no momento, me expresso por aqui, um espaço tranquilo e sem o fluxo constante e caótico de outras redes sociais. Há um desejo sadomasoquista e egocêntrico em se abrir a uma rede onde mensagens anônimas são trocadas. Qual a utilidade disso? É algo como ouvir uma voz ou receber um papel por baixo da porta sendo que você jamais poderá esmurrar, abraçar, comer (ou todas as coisas ao mesmo tempo) ou mesmo agradecer a quem te mandou tal mensagem. Tudo posto, esta mensagem é pra você, que ainda lê o que escrevo.

4.6.17

All-in-One


Não lembro muito bem de como escrevi o último post. Decidi escrever alguns dias após termos assistimo ao filme abaixo. Koreano e com margem a interpretações. Meio bêbado, escrevi as minhas impressões. É estranho ler algo assim, escrito sob certo efeito e empolgação do álcool. Parece que outra pessoa escreveu certos trechos. Também tenho a mesma impressão quando, escolhendo alguns meses aleatórios do arquivo passado ao lado, leio algo que não lembro mais ter escrito e que por vezes me surpreende por ser bom ou ridiculamente mal escrito. Sendo assim, totalmente sóbrio ou levemente bêbado, ao passar dos dias me torno outra pessoa. Melhor ou pior, mas outro.

Tanta coisa aconteceu. É difícil organizar os atos. Perdi a respiração por duas semanas. Uma sensação horrível. Leituras interrompidas. Tive certeza que há algo de maléfico no clima das quatro da manhã, quando uma asma ininterrupta me fazia acordar de um pesadelo menos pior que a realidade.

Escrever ou não, ou não continuar não escrevendo? Sou do tempo em que o blog era a única forma de oversharing possível. Hoje em dia eu vejo gente proclamando quase um pré-suicídio via Facebook, ou postando fotos do dente recém-extraído pelo Instagram. O que há em comum é que ninguém escreve textos, e sim posts. Não há um começo-meio-e-fim. Quando há ninguém lê. Eu posto umas coisas vez ou outra, mas nunca posto textos nas páginas dinâmicas e brilhantes do Facebook ou do Instagram. Ninguém consegue mais se concentrar na leitura porque só se lê em locais não propícios. Todos buscam imagens e um reflexo do que gostam, do que são ou do que desejam. Nesse mundo, um monte de letras é uma chatice, o que torna o blog algo silencioso e positivo. Só lê quem quer, quem tem interesse ou está com a mais pura falta do que fazer e não tem um livro em mãos. Escrever sobre si, postar e deixar um texto como este online não significa muita coisa. Apenas o Google+ permite um anonimato mais aberto.

Comprei um computador que faz tanto ou menos coisas que o meu celular. Não um notebook ou um tablet. Um computador, ou “all-in-one” como se diz hoje em dia. Cheguei à fase do dizer ‘hoje em dia’ porque já se vão lá vinte anos desde que comecei a ter acesso constante a um computador, ainda sem internet, e passei pela fase dos vinte anos postando quase todos os dias e obtivendo respostas, fazendo semi-amizades e tendo discussões saudáveis. O tempo em que mais postei foi durante o ano em que morei na casa da minha tia. Meu quarto era um guarda-roupas, um sofá-cama e uma mesa de computador. Não havia muitas opções. Eu também não tinha um tostão. Pedia dez reais emprestados a minha tia para passar o final de  semana. Acreditem ou não, era possível sair no sábado com dez ou vinte reais e ter um baratinho com três caipirinhas e ainda voltar para casa no primeiro ônibus da  manhã. “Qual é a sua história?”, os aplicativos perguntam: “Jogue um fitro no rosto e nos conte”. Eu costumava editar os html para mudar a cor do cabeçalho da página; publicar fotos alheias sem edição porque era simplesmente impossível melhorar a coisa toda.

Hoje tudo é mais fácil e possível. A qualidade de texto não é a mesma, o que é natural. O texto segue a mesma linha entrópica da criatividade. Estamos na fase terminal. Não há mais nada a ser escrito que ainda cause alguma surpresa. A leitura para quem gosta é o café: gostoso e imprescindível, mas nada de novo. Você bebe o mesmo todos os dias e um dia ou outro o gosto vem diferente, melhor. Sendo assim, leio de tudo. Comprei o calhamaço do Proust. Reiniciei o primeiro livro de Em Busca Do Tempo Perdido em sua tradução mais recente. Uma caixa com três volumes, sendo que o segundo tem um amassado na lombada, o que causou um desconto de quase cem reais. Leio pela manhã, sempre que posso, com a nossa gatinha ao lado, pulando sobre o meu colo, tentando arranhar o sofá ou brincando com o seu rato feito de saco plástico. Cada parágrafo escrito por Proust é uma humilhação a qualquer escritor que tente descrever a atmosfera de algo, mais ainda a alguém que tente ser prolixo tentando fazer com que isso signifique conteúdo. Também leio livros ruins, livros pós-adolescentes, ficção científica boa e mais ou menos. O curioso e bom é que nunca li tanto quanto tenho lido hoje em dia. Encontrei listas de leituras passadas, por volta de 2012, e vi que então chegara a vinte e poucos livros por ano; menos do que já cheguei nesse ano de 2017, sem Proust e sem uma casa para cuidar e sem a Frida para tomar de conta. Há algo a mais, livros, a minha vida e as horas-aula que me permitem fazer algo de útil a outrem; além da leitura que é útil a mim mesmo.

Grande parte das minhas leituras são feitas no meu Lev. Jamais pensei tornar-me adepto do leitor digital até o dia em que ganhei um da minha mulher. Durante o primeiro livro comecei a perceber a mágica da coisa. A leitura flui, mais dinâmica e simultânea. Você pode ler dois ou três livros ao mesmo tempo (como quase sempre leio) sem que precise se preocupar com marcadores ou peso. Além disso, é possível baixar livros ilegalmente como se baixava músicas e ainda se baixam filmes. Bibliografias inteiras em arquivos minúsculos. Estava com 1984 pela metade quando fui assaltado perto da minha casa e perdi o meu Lev. Continuei com os livros ‘físicos’, o Proust de antes, e Battle Royale. Pretendia esgotar a dúzia de livros da nossa biblioteca que ainda ainda não foram lidos quando, sem pompa ou circunstância, minha mulher me presenteia com a nova versão upgrade do Lev. Chama-se Lev Neo. Possui luz e botões que o tornam ainda mais dinâmico e incitador da compulsão pela leitura. O meu gosto pelos livros ruins fez com que eu abrisse uma protobiografia do Casagrande e a incluisse em minhas leituras atuais. Há muito a ser lido. Proust e todos os livos que já li tornam-me consciente de que não sou digno de ter a mulher que tenho. Tantos outros também me ensinaram que ser humano é quase o oposto de ser digno. Entre mortos e mortos, continuo lendo.

Como consequência, não há mais em mim o gosto pelo criar. Tudo já foi feito. Perdi o ímpeto por criar novas histórias. Queimei todos os meus cartuchos. Não tenho esperanças de haver ou haverem novos. Qual a necessidade disso tudo?, eu me pergunto. Escrevo boa parte pelo ato mecânico de pensar e ver o que penso sendo transcrito em uma tela, sem gosto e sem cheiro. Tudo já foi feito café. Como as moças no ônibus, ou as mães de pernas cansadas esperando os filhos saírem da aula. Há ali um enredo, uma possibilidade. No fim das contas, porém, tudo será o mesmo. Vale a pena ser editado na vida de alguém anônimo? Fazer parte, ser inscrito na vida de uma pessoa nova em folha? Não mais. Deus, como me arrependo de ter sido inscrito na vida de um punhado de gente e agravantamente sem saber o quão construtivo ou danoso eu fui exatamente. Todos sobreviveram; sendo que a palavra ‘sobreviver’ está longe de ter uma conotação positiva.  Sobreviver pode ser contar os gastos e continuar fazendo a barba a cada dois dias. Ter sido parte da vida de alguém como um mau amante; ou um grande amigo em potencial que desapareceu com o passar dos dias.

O prédio todo, todo o condomínio está em silêncio. O meu novo computador all-in-one continua impávido à minha frente, esperando ter coisas escritas. Meu corpo, eu, começo a dar sinais de cansaço. Acordei hoje cedo, há vinte e uma horas para ser mais exato. Este post se encerra porque amanhã precisamos acordar relativamente cedo para ver a ópera de Onde Vivem os Monstros.




19.2.17

sobre como Eungyo nos ensina a observar as mulheres corretamente






A contemplação da beleza feminina é algo que está caindo em desuso. O que há é desrespeito ou, mais radicalmente, desejo puro e simples de cópula. A culpa de tudo isso é dos homens, não das mulheres. 

Exceto pelos homens de classe, nos quais me incluo com segurança, que realmente admiram as mulheres. E não os cretinos que acham que seus assovios e comentários pernósticos são uma forma de "valorizar" uma mulher. Grana. Os músculos aparecendo de forma inútil. O grande problema da humanidade é que ninguém lê e, dentro dos que leem, apenas uma minoria lê os livros certos. Eu possuo preconceitos contra quem não lê. Ainda mais obtusos quando são homens. Mais ainda quando são homens que tiveram acesso à leitura mas não leram por serem burros e preguiçosos. 

Eu amo o feminino e serei para sempre um admirador da beleza feminina. Independentemente de gênero, classe ou forma. Mesmo algo inorgânico, como uma montanha, ou uma pilha encurvada de livros que remetam à forma de um quadril. Se evocam o feminino, para mim são belos. Uma mulher trans, com pau ou não, é pra mim muito mais atraente do que uma mulher fitness que possui músculos até nos polegares. Claro que uma fisiculturista não é menos mulher que uma pin-up que não liga para músculos; mas para mim, o seu corpo, a sua força, e até a sua voz que remete, lembra, evoca o masculino, anula o meu ideal estético, erótico e contemplativo de beleza. O feminino para mim é belo. O masculino para mim é feio. Não inferior. Feio.

Um cavalheiro não comenta sobre as mulheres que já passaram pela sua vida. Muito menos sobre a sua mulher. Permito-me dizer, porém, que as mulheres que tive foram muito diferentes umas das outras e eu me tornei um homem melhor após conhecer cada uma delas. Eu lamento quando ouço ou vejo homens que gostam de "um tipo" de mulher; como se isso não fosse uma clara comprovação de imbecilidade e evolucionismo de ave. A vida de um homem é agraciada com o surgimento de mulheres e cabe a ele saber amá-las da melhor forma possível. Não há um homem sem um uma mulher em sua vida. Excluindo a obviedade da mãe, o papel das mulheres é fundamental para que, sem exageros, a vida e o universo com um sentido existam.

Eu não me considero um bom amante. E isso é bom. Mesmo tendo ouvido elogios de minhas mulheres do passado e da minha mulher, a quem quero pra sempre, não considero isso menos do que uma obrigação mínima. Também já decepcionei e machuquei mulheres incríveis que passaram pela minha vida e mesmo essa culpa, arrefecida pelo tempo, tornou-me um homem melhor por não querer repetir o erro. Até onde sei, as moças de dias atrás continuam tornando-se cada vez mais mulheres. Graças a deus, esse materialista nunca desgraçou a vida de ninguém.

Todo esse papo e essa vontade de escrever sobre o meu tema preferido surgiu ontem, enquanto eu e minha mulher assistíamos Eungyo. A primeira sequência de imagens onde Lee Jeok-yo - um poeta de setenta anos, caetanamente vividos - vê a jovem Han Eun-gyo adormecida e em toda a sua beleza plena e feminina, com pés sujos e joelho ralado, respirando, apenas, e comeve-se ao ver a beleza feminina como quem realmente a percebe. E se comove ao senti-la.

Han Eun-gyo é uma mulher "sem" peito, "sem" bunda, sem nenhum atrativo óbvio de beleza. Ela é jovem e não sabe o que é poesia. Seu rosto é assimétrico, ela é magra e desajeitada, mas a câmera a percebe da forma como as mulheres devem ser percebidas; e isso a torna uma das mulheres mais belas que já vi no cinema. O poeta tem setenta anos, o que gentilmente torna desnecessário fazer comentários sobre as limitações da idade. Mesmo assim ele vê a grande beleza. Espontânea e crua. 

Não há lei que não permita a um homem observar a beleza de uma mulher de dezessete ou setenta anos. Respeitosamente.

Há desejo? Sim. Obviamente. Mas não há desrespeito. É um direito humano desejar quem é adulto o suficiente para o desejo.

Durante uma pausa, olhei minha mulher nos olhos e disse "Tá vendo? É assim que eu te vejo. Sob os ângulos corretos. Como a musa." Ela sorriu surpresa, finalmente tendo o insight de que a beleza não é óbvia. A beleza é. E não há nada mais belo no mundo do que as mulheres.

Obrigado.

O horizonte

O horizonte — visto da minha janela — não é um horizonte clássico realmente — e sim um céu bordeado por árvores insistentes em existir — ...